Leia o artigo de opinião da Dr.ª Helena Carvalho, farmacêutica hospitalar, sobre a doença policitemia vera. A policitemia vera (PV) é uma doença mieloproliferativa crónica adquirida caracterizada por uma produção anormal e acentuada de eritrócitos, leucócitos e plaquetas. Uma pequena percentagem dos doentes progridem para leucemia mielóide aguda ou mielofibrose. A produção de eritrócitos evolui independentemente da quantidade de eritropoetina presente e a hematopoese extramedular pode acontecer no baço, fígado e outros locais com potencial para a produção de células sanguíneas. A PV é considerada uma doença rara e, embora possa ocorrer em qualquer faixa etária, a idade média dos doentes é de 60 anos, com predomínio no sexo masculino. Apesar de no início não existir sintomatologia, o aumento do volume eritrocitário e da viscosidade sanguínea características desta patologia, causam fraqueza, cefaleias, tonturas, distúrbios visuais, fadiga, dispneia, trombose, sangramento (tipicamente gastrointestinal), face e olhos vermelhos, eritromelalgia e hiperuricemia. O prurido aquagénico é considerado um sintoma precoce e mais de 30% dos doentes apresentam esplenomegalia. Mutações na quinase Janus 2 (JAK2) são responsáveis por uma grande parte dos casos de PV. A JAK2 pertence à família das enzimas tirosina quinase e participa na transdução do sinal para eritropoetina, trombopoetina e G-CSF, entre outras substâncias. Recentemente, foram encontradas mutações da calreticulina (CALR) em indivíduos com PV sem a mutação JAK2, assim como mutações da proteína adaptadora linfocítica (LNK). Estas mutações levam à ativação sustentada da proteína JAK2, causando o excesso de produção de células sanguíneas. Para se proceder ao diagnóstico, é necessário efetuar: hemograma completo; teste às mutações JAK2, CALR ou LNK (sequencialmente); por vezes, biopsia de medula óssea e dosagem dos níveis séricos de eritropoetina; por vezes, determinação da massa eritrocitária. A sobrevida média dos doentes sintomáticos sem tratamento é de cerca de 18 meses, enquanto a dos que contam com suporte adequado pode ser superior a 10 anos. A taxa de mortalidade é dependente da idade, sendo 1,6 vezes ou 3,3 vezes superior à população de referência, em doentes com menos ou mais de 50 anos, respetivamente. 10 a 30% dos doentes evoluem para mielofibrose e insuficiência medular e 1 a 2,5% para leucemia aguda. A PV é uma doença crónica que não tem cura e o tratamento consiste na redução das células sanguíneas em excesso e consequentemente na diminuição do risco de complicações. Os casos menos graves, geralmente, passam apenas por acompanhamento médico e por um procedimento chamado flebotomia, uma técnica que consiste em retirar uma determinada quantidade de sangue de uma veia. Este procedimento reduz o número de eritrócitos, assim como o volume sanguíneo. A indicação para flebotomia é ter hematócrito superior a 45% para os homens e superior a 42% para as mulheres. O ácido acetilsalicílico pode ser receitado numa dose baixa (entre 100 e 150 mg) para reduzir o risco de formação de trombos e aliviar os sinais e sintomas dos eventos microvasculares. O Interferão tem por alvo a célula maligna, poupando as células estaminais normais. As apresentações peguiladas são bem toleradas. A hidroxiureia tem sido amplamente utilizada na PV, mas o seu papel tem vindo a diminuir com o aparecimento dos inibidores da JAK. O ruxolitinib, primeiramente conhecido como INCB018424 ou INC424, é um potente e seletivo inibidor oral da quinase janus1 e 2. Foi aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) e pela European Medicines Agency (EMA), em 2014, para o tratamento de doentes adultos com PV, resistentes ou intolerantes à hidroxiureia. É administrado por via oral, com ou sem alimentos e a dose inicial recomendada, na PV, é de 10 mg por via oral duas vezes por dia. É um composto com elevada permeabilidade, elevada solubilidade e rápida dissolução e a concentração plasmática máxima é atingida aproximadamente uma hora após a administração. Em concentrações clinicamente relevantes, a ligação às proteínas plasmáticas in vitro é de aproximadamente 90%, sobretudo à albumina. Um estudo autoradiográfico de corpo inteiro em ratos mostrou que o ruxolitinib não atravessa a barreira hemato-encefálica. É metabolizado principalmente pela CYP3A4, com contribuição adicional da CYP2C9 e o composto original é a entidade predominante no plasma humano, representando cerca de 60% dos produtos relacionados com o fármaco em circulação. O ruxolitinib é sobretudo eliminado através de metabolização e a semivida de eliminação média é de cerca de três horas. E, porque a Ciência não pára, outros inibidores das quinases janus estão já atualmente em estudo para o tratamento das doença mieloproliferativas, nomeadamente, a PV.